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Esse negócio de Rave

A pista, lotada, tem tantos efeitos de luz que parece pronta a receber uma nave espacial. Quando o ritmo tecno, hipnótico, pulsa em velocidade máxima, canhões de gelo seco e fumaça armam uma atmosfera tão enevoada que não se enxerga a própria mão. As pessoas gritam, parecem se divertir loucamente.
Rave, em inglês, é delírio, festa que saltou para o circuito tradicional da vida noturna e atrai multidões. Quem cansa sai da pista, pega alguma coisa para beber (de preferência uma bebida energética), senta na grama, olha as estrelas, assiste a malabaristas que fazem performance com fogo. As grandes raves acontecem ao ar livre, em sítios, e, por isso, são mais freqüentes no interior. Em São Paulo, vários grupos organizam festas com nomes ininteligíveis para leigos, mas decisivos para iniciados: XXXperience, Avonts, Fusion entre outras.

Os iniciados, no caso, são os clubbers, comunidade que vem impondo sua estética agressiva, cibernética e colorida nos últimos cinco anos e, agora, vem sendo clonada por outros grupos. Assim, dançam nas raves jovens de
camisa e jeans ao lado de personagens de meia arrastão, saia de paetê, casaco de pelúcia e óculos de lentes amarelas. Ricardo Amaral, ou DJ Rica, 28, um dos três organizadores da XXXperience, festeja a integração de tribos diversas na rave: “ Vai todo tipo de gente que se possa imaginar, preto, branco, amarelo, é um zoológico.”

Avonts caucaia do alto

A pista mais animada é coberta por uma lona de circo. A outra fica em uma casa do sítio. Entre uma e outra, muita gente sentada na murada em volta da piscina ou nos morros de grama do terreno. Conversando, olhando as luzes que transformam árvores em sombras azuis, vermelhas, violetas; alguns arriscam um mergulho.
Hoje tem muito playboy e eles não entendem o espírito da coisa, que é paz, diversão. No começo, não precisava pagar para entrar, nem tinha divulgação”, No começo, não juntavam mais que 200 pessoas. Eram a dissidência clubber: reuniam quem gostava mais da música que dos piercings.Um dos pioneiros a organizar raves no Brasil foi o DJ e jornalista Camilo Rocha, 30 anos.Não existiam festas como as de Londres, ao ar livre, mais desencanadas”, conta. A “cena” era a comunidade clubber, uma família fechada que ouvia tecno e freqüentava lugares como os Hell’s Club, na Rua Augusta, em São Paulo, que abria aos sábados às cinco da manhã.
“Nessa época tinha gente que não ouvia tecno nem freqüentava clubes porque achava, por preconceito, que esse era um mundo muito gay, muito metido. Então resolvi fazer uma rave com um grupo de amigos. A coisa foi crescendo, chamando outras pessoas. Isso é que diferencia a rave de outros movimentos: ela é inclusiva”, conta Camilo Rocha.
A Avonts foi a primeira vez da estudante L.G., 16. “Estou gostando, é bem louco”, diz. Ela e os amigos chegaram lá todos com os cabelos pintados com o mesmo spray cinza. Vinham, às 4h30 da Allure, uma danceteria bem comportada. .Tem mesmo um gosto eclético, que vai da música sertaneja ao tecno. “Gosto de ouvir o que toca aqui, entendo um pouco, mas não sou especialista.
Os irmãos Carlos Eduardo, 22, e Fabiano Andrade Santos, 26, que trabalham em uma empresa de telefonia, têm uma expressão decepcionada, no meio da festa, lá pelas 3 h.“Eu sabia mais ou menos como funcionavam essas festas. Um amigo fez o maior ibope, disse que ia ter mulher para caramba e eu vim. Mas não rola um diálogo, você conversa com elas e é igual a conversar com um espelho”, diz Carlos Eduardo, que preferia estar ouvindo axé ou country, vestindo camiseta listrada e calça xadrez
Esquema de paquera, mulher, eu não vi”, completa Fabiano, de camiseta e calça jeans. No meio de tanta gente com roupa extravagante, são eles os alienígenas. A assistente de figurino Roberta Boromelo, 20 anos, de meia vermelha com outra meia arrastão preta por cima, diz ter sido uma habituê de raves no início, depois ficou um tempo sem ir, e fazia o retorno na Avonts.



Cybermano
Cybermano é um nome que surgiu em 1997 e designa pessoas da periferia que gostam de música eletrônica. Revela o preconceito que existe entre as várias facções do meio, entre puristas e agregados. “Antigamente, o rótulo era ‘clubber favela’, que era muito feio. Um dia alguém apareceu com a expressão, eu comecei a usar na coluna e pegou”, conta a jornalista Érika Palomino, 31, que escreve a coluna semanal “Noite Ilustrada” no jornal “Folha de São Paulo”, falando da cena clubber. “Eles começaram a aparecer em 1996, tomaram conta dos Hell’s. Funcionam de uma maneira diferente, não dançam, formam uma parede em frente aos DJs.
O preconceito contra os “cybermanos” teria uma relação com violência. Eles costumam freqüentar lugares como as danceterias Nation e Sound Factory, em Pinheiros. Em bairros como esse, que tem como opções de vida noturna para todos os estilos, esse grupo tem problemas com punks, skatistas e skinheads, que esperam os “cybermanos” na saída das casas noturnas para brigar.

“Já apanhei muito de punk”, diz Paulo Sérgio Kamura, 18 anos, que trabalha no mercado do pai e usa cabelo moicano, carimbo punk. Nas raves, a violência gratuita é difícil de acontecer: as festas acontecem em lugares mais afastados e, nelas, os “cybermanos” estão em maior número. “Quando dá, venho para as raves. É mais sossegado”, registra Paulo Sérgio.
Rave sudamericana Barra funda
O sucesso das raves fez com que elas fossem também para a cidade. Na Barra Funda, em São Paulo, velhos galpões servem para festas como a Rave Sudamericana, realizada no mesmo lugar em que acontece a feira de moda alternativa Mercado Mundo Mix. O clima é bem diferente daquele da Avonts.
Achar um lugar para sentar é difícil. Existem algumas mesinhas com cadeiras, concorridas, e muita gente se rende ao chão mesmo. Conversar é quase impossível, não há como escapar do som altíssimo – mas, também, ninguém vai lá para isso...
No ambiente fechado, a decoração fica mais evidente. Na verdade, são as mesmas luzes cinematográficas e os mesmos cartazes psicodélicos em cores fluorescentes. Sem grama nem estrelas, muitos se divertem jogando fliperama. Outros encarnam o espírito lúdico e pulam na cama elástica, brincam na piscina de bolinhas.

As raves no Brasil seguem uma trajetória oposta à das raves no exterior: lá, elas começaram em galpões e foram se afastando de Londres na medida que cresciam e chamavam a atenção pelo consumo de ecstasy, uma droga estimulante que ficou associada ao movimento.
Aqui, as raves começaram ao ar livre e, só depois vieram as edições urbanas. No resto, tudo conforme a cartilha: chegaram as raves, chegou o ecstasy, e também chegou o ácido, numa versão menos lisérgica que a dos anos 60. O cheiro de maconha é perceptível, como em qualquer show de rock. “Tem muita gente que consome droga em rave, mas tem muita gente que faz isso em qualquer lugar”, diz o DJ Rica.
Nas duas pistas, DJs de vários países alternam-se nas performances sonoras. O artesão e DJ Fábio X, 21 anos, é um dos que vieram para ouvir a música. “Venho por causa
do som. Gosto muito do DJ Mau Mau, acho ele o melhor.
Os grupos convivem pacificamente nas raves, mas, como água e óleo, não se misturam. As rivalidades são explicitadas pelo visual. O freqüentador-padrão é o chamado “goa”, um nome que faz referencia ao estilo musical e meio hippie de Goa, na Índia. Os “goas” são facilmente identificáveis pelas roupas mais psicodélicas, com estampas manchadas e cores fluorescentes – o toque anos 90 na estética bicho-grilo.
Camel Conection - Barra Funda
Todo mês tem rave em São Paulo, mas nem todas seguem o espírito original. A Camel Connection é um exemplo de rave hollywoodiana: superprodução, com performances ininterruptas de artistas circenses dependurados em balanços sobre a pista, modelos dançando em gaiolas, drag queens desfilando aqui e ali. É a descoberta do negócio por trás da rave – o nome Camel Connection vem da marca de cigarros, distribuídos aos presentes.
A drag Gladys Adriane, 21 anos, ganhou R$ 250 para animar a Camel, realizada em outro galpão na Barra Funda. “Nós deixamos a festa diferente do normal. Festa sem drag não acontece”, diz. Quem veio a essa rave pagou R$ 15 para entrar e deixou mais R$ 10 com o manobrista. Se quiser um refrigerante desembolsa R$ 2,50 e te que conversar muito com o atendente do bar caso pretenda pagar a conta com cheque. A drag Gladys acha o procedimento normal. “Tem que cobrar para a festa ser bem produzida, com segurança, com o que há de melhor. Quem vai a raves é a nata de São Paulo”, empolga-se. Sua colega La Belle Beauty, 20 anos, completa: “É o povo mais moderno que vem”.
No caso, o povo é uma união de diversidades, um espectro tão amplo quanto o conceito de modernidade de cada um. “Tem pessoas que estão aprendendo, querem ser modernas. Tem gente que põe uma fantasia, fica parecendo baile de Carnaval”, critica a vendedora Carine Rueda, 25 anos, vestindo uma saia de penas vermelhas e um top decotado, modelo que ela mesmo desenhou. Ela é uma das convidadas com passe livre na sala VIP da festa, guardada por um segurança e com direito a bebida de graça.
“As raves brasileiras têm uma característica ruim, que é ter gente que vai só porque está na moda. Acho que o importante, nesse tipo de festa, deveria ser a música”, diz o DJ alemão Alex Dee, 25 anos, que mora no Brasil há dois anos.
Tecno para ouvidos leigos, soa todo igual, todo com cara de bate-estaca, mas o gênero tem várias divisões e, para os clubbers, é a trilha sonora de sua atitude. Os que os outros classificam como “cybermanos” ouvem tecno pesado, o mais eletrônico, frio e minimalista. Já os pioneiros da cena rave são mais abertos: ouvem todos os tipos de tecno. “Eu não gosto de colocar as coisas em caixas: acredito que existe boa e má música. Quem dá a mínima se boa música é tech house, tecno, punk ou o que quer que seja?” diz o DJ francês Laurent Garnier, 35, considerado um dos melhores do mundo e que esteve no Brasil, pela segunda vez, em março. “Acho que os rótulos são bons para os garotos terem idéia de onde estão pisando, mas não significam muita coisa.”
Vão-se os estilos, ficam os DJs, as estrelas das noites de música eletrônica. São cultuados, todo amante de música eletrônica tem seu DJ favorito. Eles fazem mais do que colocar música para que os outros dancem: são fontes de informação musical, têm que trazer novidades às pistas. “O DJ é como um regente sem orquestra. Tem um monte de discos e precisa saber contar uma história com eles”, diz o DJ Luiz Paretto. É por isso que as pessoas seguem seus DJs favoritos, de rave em rave, clube em clube: só eles podem “contar a história” daquela maneira. A popularização da música eletrônica projetou as raves e foi, por elas, impulsionada. A coisa ficou maior, mas tem quem veja na explosão da festa seu maior problema: vai gente demais. “O auge das raves foi na Fusion, em agosto, na Aldeia da Serra. Foram 8 mil pessoas. Acho que, nessa festa, o limite foi excedido “, diz Camilo Rocha.
Como em tudo e em todos, a “cena” tem suas contradições – quem aplaude a explosão das raves também têm saudade daquele modelo pequeno, para poucos, em sítios bucólicos... Além das raves grandes, os DJs confessam organizar festas “petit-comité”, para 200 ou no máximo 300 pessoas. “Estou fazendo umas festas meio secretas, para irem justamente os amigos, ser uma coisa mais agradável”, diz Rica. “Essas festas são muito legais, porque a maioria do povo que vai se conhece, tem menos pára-quedista”, completa Camilo.

Fonte: Revista Veja



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